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Milho colorido exposto na feira gastronômica Mistura 2014, em Lima |
Saudade do
feijão carioquinha sinto, não nego. Difícil é passar sem farinha de mandioca.
Ah!, essa, sim, sempre veio na minha bagagem ou na de familiares e amigos que
vieram nos visitar, nesses nove anos fora. Adaptar-se aos diferentes
ingredientes e comidas dos locais onde morei não foi problema até agora. Ao
contrário, tem sido fonte de novas descobertas. Assim foi no Uruguai, Bélgica e
Peru.
Incorporo ingredientes locais com boa vontade, carinho
e criatividade. No Peru, frutas, verduras, grãos, peixes e outros produtos são
variados e de muito boa qualidade. Quem mora em Lima ou vem à cidade na primeira quinzena de setembro pode conhecer alguns dos produtos da culinária peruana na feira gastronômica Mistura. Vou citar alguns dos ingredientes e pratos típicos que
já fazem parte do cardápio de casa. Voilá:
Feijão –
nos supermercados de Lima há vários tipos de feijão, só não há nada parecido
com o nosso carioquinha. Bom, então, para o dia a dia uso o feijão preto – o da
marca Serranita rende caldo mais grosso e saboroso. Gosto também do feijão castilla, parecido ao feijão de corda.
Há ainda o canario, panamito e red kidney - feijão avermelhado de grão grande que raramente
preparo.
Outras opções são o feijão haba - verde, grande e chato
– e o pallar (branco). Outros grãos
também podem substituir o feijão nas menestras,
como dizem os peruanos. São eles lentilha e grão-de-bico, fáceis de encontrar
nos supermercados.
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Feijão misto de Cajamarca. Só encontro na feira Mistura |
Habas -
Uso habas in natura em sopas e para preparar dois pratos típicos peruanos: solterito
e locro.
Para o solterito, misture habas frescas cozidas, com tomate
picado, salsinha, cebola, azeitona preta picada e uns cubinhos de queijo fresco
(substituo por outros tipos de queijo, como o Andino). Para temperar: sal, azeite, cebola roxa, pimenta, salsinha e limão de Chulucanas, o mais comum por aqui. A cebola roxa
peruana, diferente da brasileira, é suave e dá sabor especial ao solterito. É um prato frio, leve,
geralmente servido como entrada.
O locro é um prato quente, tipo
ensopadinho de legumes. Leva batata yungay
(branca), habas, milho (de grãos grandes amarelos), abóbora (zapallo macre), pasta de ají
amarillo (explico como fazer abaixo) e huacatay (erva andina).
Quem acha o huacatay um pouco forte pode substitui-lo por salsinha. Mas o prato ficará sem aquele gostinho andino...
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Tubérculos andinos, como batata, olluco e mashua, na banca da agricultora Victoria Soto, na feira Mistura 2014 |
Batatas -
o Peru tem cerca de 3 mil tipos de batatas nativas. Apesar da grande variedade,
nos supermercados, normalmente, há poucos tipos. As mais comuns são: yungay (branca e consistente), huayro (pouco farinhenta), papa amarilla (batata amarela e
farinhenta), batatas coquetel (pequenas e redondas).
A papa amarilla
é minha preferida para fazer papas
douradas (batatas sautées), sopa
e para o prato típico peruano causa
rellena (misturada à batata branca, a yungay).
Causa rellena – A causa é um prato frio, feito de
purê de batata, com recheios variados. Pode ser um refogado de camarão, atum,
frango, salmão defumado, legumes, caranguejo.
O que diferencia a causa
e dá gosto e cor é a pasta de ají
amarillo, além do limão (o de Chulucanas é bem aromático, de sabor
especial) e, claro, a batata peruana. Sem ají
amarillo, a causa seria um simples purê de batata.
Para fazer a causa
rellena, cozinhe batatas yungay e
amarillhas (inteiras e com casca). Descasque-as e passe-as pelo espremedor. Adicione a pasta de ají
amarillo (receita abaixo), sal e limão. Coloque em um pirex uma camada da
massa, alisando-a com uma colher. Em seguida, o recheio e o restante da massa.
Cobrir com abacate (palta) amassado, com um pouco de limão. Alisar com uma colher. A decoração tradicional
do prato é feita com ovos cozidos e azeitonas pretas.
Em casa, faço a causa
em um pirex, sempre com recheio de caranguejo (no supermercado há pacotinhos de
polpa de caranguejo congelada, já desfiada. É só refogar com os temperos). Não uso
maionese na causa.
Em restaurantes, o prato geralmente é servido em
porções individuais, no formato de rocambole ou sortido, com minicausas de diferentes recheios.
Ají amarillo - Pimenta
comprida de cor amarelo-alaranjado, de gosto suave. É base do tempero de vários
pratos peruanos, como ají de gallina,
causa rellena, locro, lomo saltado.
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Ají amarillo grelhado, com recheio |
Pasta de ají amarillo: corte alguns ajíes ao meio, retire sementes e veias brancas. Cozinhe em água, por cerca de 10 minutos, até que a pele comece a soltar. Despele as pimentas. Bata no liquidificador com um pouco de água e óleo. Está pronta a pasta.
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Variados tipos de ajíes peruanos (pimentas) |
Quinoa – grão
andino muito nutritivo que está na moda. Vale lembrar que 2013 foi o Ano
Internacional da Quinoa, estabelecido pela ONU. Com alto valor nutritivo e rica
em proteína, a quinoa pode ser usada em preparações doces e salgadas.
Costumo usar a quinoa em sopas e saladas, com legumes
e vegetais picados - tomate, cenoura, vagem e ervas (hortelã, salsinha,
cebolinha, huacatay), temperada com
azeite, limão, sal e pimenta-do-reino.
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Diferentes tipos de quinoa |
Como cozinhar
a quinoa – Para cada xícara de quinoa, quatro xícaras de água.
Lave e escorra o produto. Coloque água para ferver em uma panela. Acrescente a
quinoa e cozinhe em fogo baixo de 10 a 12 minutos. Escorra os grãos em uma
peneira. A quinoa estará al dente e
pronta para ser usada em saladas. Acerte o ponto de cozimento a gosto ou
conforme a receita. Para sopa, por exemplo, o ideal é cozinhar por 20 minutos.
Qapchi - Prato típico da região de Ayacucho,
também incorporado e adaptado à cozinha de casa. Fácil de fazer: amasse com um
garfo o queijo fresco (o ideal é o queijo de Ayacucho, mas na falta deste use
qualquer queijo fresco).
Acrescente um pouco de leite para a mistura ficar mais
cremosa. Adicione sal, pimenta, cebollita
china (cebolinha mais forte), rocoto
cortado em cubinhos e algumas folhinhas de huacatay
picadas. Sirva sobre batatas cozidas, de preferencia as amarillas. Use rocoto e huacatay com
moderação: o rocoto é bem apimentado
e o huacatay tem gosto forte.
Aspargo,
alcachofra, azeitona e azeite – Clima e solo da costa peruana
favorecem o cultivo de vegetais mediterrâneos. A propósito, o Peru ocupa os
primeiros lugares entre os países exportadores de aspargos e alcachofra.
Use e abuse do aspargo, sobretudo o verde. Pode ser
grelhado, em sopas, saladas, omeletes, tortas e quiches. Bem comum nos mercados é o fundo
alcachofra. Bom para fazer gratinado com um queijo, salsinha e cogumelos. É uma
entrada fácil, leve e saborosa.
Em casa, consumo apenas azeite de oliva de marca
peruana. Gosto do Acaville extra virgem e do Zumaq (orgânico), na apresentação
tradicional ou aromatizada.
Marmelada –
Quando bate aquela vontade de comer goiabada ou usá-la em alguma receita, a
saída é o machacado de membrillo (doce
de marmelo) à venda em mercados e supermercados.
Cecina – Não encontrei em Lima nada parecido à costelinha defumada brasileira. Há uma carne suína defumada chamada cecina, consumida na região amazônica do Peru. Comprei um pacotinho do produto na feira gastronômica Mistura e fiz uma feijoada bem adaptada aos ingredientes daqui. A cecina dá leve gosto defumado à feijoada, mas não substitui a costelinha.
Abacate (palta) – no Brasil,
usamos o fruto em preparações doces. Outros países da América o prepararam com
sal (bom exemplo é a guacamole do México). Aderi totalmente ao abacate salgado
e em casa uso em saladas, sanduíches e outros pratos salgados, como a causa rellena (mencionada acima).
Experimente: abra o pão francês, coloque abacate em
pedacinhos ou amassado, rodelas de tomate, azeite, pimenta-do-reino, azeitona
preta, salsinha ou huacatay. Uma
delícia! Ou uma salada de tomate em rodelas (sem pele e semente), abacate, sal,
pimenta, bom azeite e vinagre balsâmico. Ou um sanduíche com salmão defumado
e abacate. Ótimo também. Ou na salada de grão-de-bico. São muitas as
variações...
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Chirimoya |
Chirimoya e lúcuma – quem vem passear ou morar em Lima vai ouvir falar muito dessas frutas. São consumidas ao natural ou em sorvetes, sobremesas e sucos. A lúcuma ao natural é farinhenta, não gosto muito. Já a chirimoya, fruto de polpa doce e carnuda, é uma delícia.
Aguaymanto - Fruta amazônica conhecida no Brasil
como físalis ou camapu. Chama a atenção mais pela beleza que pelo sabor. Folhas
e fruto se parecem a um balãozinho de papel de seda com uma lâmpada amarelinha
dentro. Muito delicado.
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Buquê de aguaymanto |
Além do consumo in natura, pode ser usado em outras preparações. Leve as frutinhas ao fogo com um pouco de água e açúcar até virar geleia. Use como recheio de cheese cake ou para acompanhar uma mousse de chocolate ou outra sobremesa, para destacar o contraste doce-azedo. Um molhinho de aguaymanto (sem açúcar) também vai bem com salmão.
Pequenos buquês de aguaymanto
podem decorar a mesa, junto com outras frutas ou flores.
Tuna –
fruto do cacto. Boa para suco.
Sacha tomate – dá cremosidade ao suco de laranja ou maracujá (metade da fruta batido com um litro de suco é suficiente). Há em mercados, como o Santa Cruz (Miraflores), San Isidro ou Surquillo.
Peixes –
As águas frias do Pacífico, frias e ricas em nutrientes, favorecem o
desenvolvimento de grande variedade de peixes e frutos do mar. Recomendo os
seguintes pescados: cachema, mero,
chiarela, chita (ótima também
para fazer ao forno, com alho fatiado), congrio, tollo de leche (tipo cação), pejerrey
(parecido com manjuba), cojinova e lenguado.
Nos supermercados (Vivanda, principalmente, ou Wong)
há bons peixes frescos. Gosto também das peixarias do mercado municipal de San
Isidro.
Outro peixe comum nos mercados de Lima é o paiche
(pirarucu), um dos maiores peixes de
água doce, encontrado na bacia amazônica. Bom para fazer assado, grelhado,
ensopado ou frito. Outros peixes de água doce, também saborosos, são tilápia e
truta (branca e salmão).
Difícil encontrar bacalhau
por aqui. É pouco consumido no Peru. Às vezes, encontro no Food Fair (rua Valle
de Riestra 106, San Isidro). O mercadinho vende bacalhau congelado por cerca 150 soles o
quilo (120 reais). A Food Fair é uma venda de bairro, una bodeguita, como dizem os peruanos,
cheia de coisinhas gostosas nacionais, importadas e artesanais, como biscoito de pisco e minitamales recheados de queijo cremoso.
São tantos os
ingredientes e pratos peruanos. Apresentei apenas pequeno mosaico de sabores. De
propósito, não falei do ceviche, o
mais peruano dos pratos, feito basicamente de peixe cru, limão, ají limo, cebola, sal e um toque de
mágica de quem o prepara. O ceviche, caro leitor, convido-o a prová-lo, pessoalmente, em uma das boas cevicherias de Lima.
E bon appétit!
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Vários tipos de milho, chamado de choclo no Peru |
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Outras espigas de milho coloridas que encontrei na Mistura 2014 |